O bom jornalismo vai morrer?
Abr 30th, 2009 by Christian Marra
Os sinais são preocupantes. Nos EUA, jornais centenários fecham as portas. Outros, entram em concordata. Na Europa, jornais tradicionais estão à venda. Os sites de notícias, por sua vez, não encontram uma fórmula para sustentar o negócio. Se tudo isso fosse pouco, as pessoas lêem cada vez menos, a ponto de até os blogs começarem a ter seu futuro questionado, pois perdem espaço para o fenômeno Twitter de microtextos.
Nesse cenário sombrio, caro leitor, sobram interrogações: o bom jornalismo está com seus dias contados? Será que as pessoas já não se importam mais em dedicar tempo a ler boas reportagens? Por que bons jornais, com tradição centenária a alta credibilidade, desaparecem? Problemas apenas de má gestão ou o impacto das novas tecnologias está abalando irreversivelmente a mídia impressa?
De onde surgem tantas dúvidas? Elas aparecem após ler textos como os seguintes. Aí vai um deles: uma recente pesquisa do Pew Research Center, um instituto norte-americano que monitora a mídia local, cujo texto pode ser lido aqui (em inglês), mostrou que apenas 33% dos entrevistados “sentirão muito” caso seu jornal local feche as portas. Os outros 77% parecem não importar-se tanto com isso. Isso é muito chamativo.
Ao mesmo tempo, uma reportagem da Veja trouxe outro dado alarmante: o site do New York Times (a fina flor do jornalismo na internet) tem 20 milhões de usuários. Contudo, o tempo médio de leitura do internauta é de apenas 1,10 minuto por dia. Ou seja, a imensa maioria dá só uma olhada nas chamadas. Poucos lêem as excelentes reportagens e os ótimos infográficos ou assistem aos vídeos de ótima qualidade. A empresa investe pesado em reportagens de alto nível (como este fantástico infográfico da foto, que monitora diariamente os casos de gripe suína no mundo todo). Mas o público parece não estar lá muito interessado…
Juntei esses dados a um terceiro artigo que recentemente causou perplexidade na web. Andrew Keen, do britânico The Independent, publicou um texto que levanta dúvidas sobre o futuro dos blogs. Segundo ele, nas comunidades que discutem a nova internet, a conclusão a que estão chegando é que o Twitter provocará um impacto direto no modo atual de funcionamento dos blogs.
De fato, os primeiros blog surgiram há aproxidamente 10 anos. Hoje, seu formato parece começar a ficar ultrapassado, especialmente diante do avanço do Twitter, que é uma mescla de um microblog com rede social. Este ganha espaço pois oferece textos de rápida leitura, que podem ser acessados facilmente em dispositivos móveis, como celulares. Os blogs “tradicionais”, portanto, terão que se “adaptar aos novos tempos”. E veja que coisa: eles surgiram há pouquíssimo tempo! Hoje parecem “dinossauros”.
Esses sinais parecem indicar que o público quer cada vez mais textos de rápida leitura (as chamadas “pílulas informativas”). Isso é altamente nocivo ao bom jornalismo. Causa espanto o crescente desinteresse do público por reportagens de qualidade - que, evidentemente, não podem ser reduzidas a 140 caracteres de texto. Jornais ou sites de notícias elaboram matérias espetaculares, com trabalho pesado de apuração e edição. E muitas vezes, o número de leitores dessas matérias é reduzido.
O que está acontecendo? A superabundância de informação da internet está ofuscando a informação mais aprofundada? As pessoas estão lendo cada vez menos? Será possível que só queiram textos curtos e breves? As pessoas não se preocupam mais com temas de alcance social, dando ênfase a temas de entretenimento, lazer, vida pessoal, carreiras, etc?
Esse é um assunto que com frequência é debatido nas aulas do Master em Jornalismo. Uma das nossas conclusões é a de que a cultura do individualismo, que cada vez mais permeia a sociedade, afetará diretamente o bom jornalismo. Temas de interesse público ou assuntos de alcance social ou coletivo - que sempre serão notícia -, estão ficando em segundo plano ante os assuntos de interesse meramente pessoal.
A redução dos índices de leitura, também afetada pelo avanço da cultura audiovisual (que só tende a aumentar com o crescimento da internet), é outra corrente que atinge o bom jornalismo. Nem mesmo os jornalistas de hoje podem ser considerados exímios leitores. Quando o nosso professor Paco Sánchez comenta que nós, jornalistas, deveríamos ler, todos os anos, uma pilha de livros de um metro de altura, a maioria dos alunos cai de costas.
Será que essa combinação de cultura audiovisual, informação instantânea e preguiça de ler irá acabar com o bom jornalismo? Torço para que isso não aconteça. Mas é preciso ser realista: o momento é de profundas transformações na mídia. Os hábitos das pessoas estão mudando muito com a Era Digital. Não necessariamente isso tudo acabará com o bom jornalismo. Mas, sem dúvida, as empresas jornalísticas precisarão aprender a adaptar-se ao novo cenário, que já não é o mesmo de cinco anos atrás (ou de dez anos atrás).
É preciso tirar proveito das novas circunstâncias que, para nosso desespero, parecem modificar-se radicalmente a cada cinco anos. De fato, quem falava de Twitter há cinco anos atrás? E de conteúdos em celulares? Já existiam, mas ainda se falava muito pouco. O iPhone não existia. Sua chegada acendeu a preocupação em se criar sites para celulares. Enfim, tudo isso já está reembaralhando novamente o cenário da comunicação. E para os próximos anos já se fala no aprimoramento do e-paper, que dentro de cinco poderá já oferecer um nível de qualidade que ainda não tem hoje. Preparem-se para mais revoluções!
Insistindo, o jeito é sempre tirar proveito do cenário. Fazer o de sempre (bom jornalismo, com seus critérios éticos e valores permanentes e imutáveis), mas com enorme sintonia com os novos hábitos do público, que se transformam rapidamente. Vejam este interessante especial de 13 anos do UOL. Quanto mudou em tão pouco tempo! Os portais de hoje não têm absolutamente nada a ver com os primeiros que surgiram. Já os jornais, ou a TV, ou o rádio, não são lá tão diferentes do que eram há 13 anos atrás. Não é fácil fazer bom jornalismo na web.
A cultura audiovisual, por sua vez, não precisa ser considerada uma vilã do jornalismo. É possível fazer excelentes matérias audiovisuais na internet. Tem algum dúvida? Confira no excelente site Interactive Narratives, que traz uma fantástica compilação internacional de reportagens multimídia na web. Ou então, visite o projeto Media Storm, mantido pelo Washington Post, que incentiva a criação de reportagens multimídia.
Mesmo o Twitter pode ser usado a favor. Gosto de usá-lo como uma plataforma de dicas de textos relevantes que vou encontrando pela web (sim, há muito trigo no meio do joio!). Ou então, como o Twitter tem tantos usuários, uso o serviço como forma de captar audiência para nosso site. O meu pessoal pode ser lido aqui, e o do Master em Jornalismo, aqui.
Quanto aos hábitos de leitura, não me resta outra alternativa senão seguir animando as pessoas a dedicar tempo diariamente a isso (e me esforçar por fazer o mesmo)…
