Master em Jornalismo Uma revolução no ensino de jornalismo no Brasil

São Paulo, 28/07/2010 às 11h18

Charo Sádaba: "É essencial compreender a geração interativa"

Professora do Master, vice-diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra coordenou pesquisa sobre o tema que inclui o Brasil

Ethevaldo Siqueira, O Estado de S. Paulo

Garotos e adolescentes de hoje dominam o computador, o videogame e o celular com uma facilidade impressionante. Navegam na internet como poucos adultos seriam capazes. Adoram as redes sociais e sites que a maioria dos adultos nem supunha que existissem. Aprendem ou descobrem tudo sozinhos ou com uma troca de informações muito rápida com seus colegas, com base em sua incrível intuição. Até porque não têm medo de errar uma ou dez vezes. Tudo isso não é novidade – nós, adultos, já percebemos que estamos diante de uma geração muito diferente da nossa.

Acabo de conhecer e entrevistar uma grande especialista nessa nova geração: a professora Charo Sádaba
Chalezquer, que é diretora do Departamento de Empresa Informativa da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra. Em lugar de geração Y ou geração X, seria melhor chamá-las agora de geraçãointerativa ou até no plural, gerações interativas.

“O aspecto mais importante a destacar sobre esses meninos e jovens”, diz a professora Sádaba Chalezquer, “é
que, pela primeira vez, estamos diante de jovens que sabem mais do que seus pais ou do que os adultos em geral (ou pensam que sabem) sobre novas tecnologias. Essa aparente autossuficiência dos jovens irrita, em geral, os pais e cria barreiras de preconceito e incompreensão nas relações familiares.”

Nossa primeira constatação sobre esses garotos e adolescentes é sua aparente autossuficiência. E, como usuários
de novas tecnologias, eles, realmente, demonstram maior domínio e facilidade do que a maioria esmagadora dos adultos. Mas ninguém deve pensar que essa geração interativa seja homogênea. Há diferenças muito grandes de comportamento entre garotos da mesma idade e da mesma classe econômica.

Aliás, segundo a especialista espanhola, um equívoco muito comum hoje é pensar que os jovens dessa geração
interativa não leem. Ao contrário, eles leem mais do que os adultos. Sua leitura, no entanto, é diferente, fragmentada, sem muita sequência lógica. Esse erro de avaliação leva muitos pais a insistirem com seus filhos para que leiam livros. E, naturalmente, encontram grande resistência dos garotos.

Essa nova geração passa boa parte de sua infância e adolescência diante de quatro telas: a do computador, da
TV, do celular e do videogame. Boa parcela dela já está diante de telas de e-books, iPods, tablets, netbooks e outras.

E a situação no Brasil?

Um livro sobre o tema na América Latina acaba de ser publicado pela Editora Ariel, de Barcelona, e pela
Fundación Telefónica. Com o título de A Geração Interativa na Ibero-América – Crianças e Adolescentes diante das Telas, esse livro analisa em profundidade os dados de uma pesquisa sobre o tema realizada na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela.

A professora Charo Sádaba Chalezquer está no Brasil para dar um curso sobre o tema da Geração Interativa a 45
jornalistas, no Instituto Internacional de Ciências Sociais, em São Paulo. Ela foi uma das coordenadoras de um estudo sobre o comportamento dessa nova geração na América Latina, em conjunto com o professor Xavier Bringué Sala, também da Universidade de Navarra.

Os riscos do abandono

A falta de compreensão dos pais em relação ao comportamento e às preferências da geração interativa leva, com
frequência, ao abandono dos garotos e jovens diante da internet pelos pais. Esse problema parece atingir hoje a maioria das famílias estudadas no Brasil, na América Latina e na Espanha.

Aqui como na Europa, segundo a professora Charo Sádaba Chalezquer, há casos realmente sérios desse tipo de
abandono, pois as crianças acabam ficando horas e horas navegando na internet, visitando sites de todos os tipos, sem qualquer consciência dos riscos e perigos que as ameaçam, sendo o maior deles a ação dos pedófilos. Esse perigo já preocupa até a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência das Nações Unidas para esse setor, que desenvolve campanha mundial, com o alerta bem claro: “Proteja seu filho dos perigos da internet”.

Além do abandono dos filhos no lar, porque seus computadores ficam nos quartos de dormir dos garotos, existe
ainda o risco das lan-houses e cibercafés. Nesses estabelecimentos, a situação é ainda mais grave porque, entre seus frequentadores, há até delinquentes e aliciadores de menores. Está na hora de abrir os olhos da maioria dos pais, aqui e lá fora.


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