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São Paulo, 07/06/2010 às 11h35

Luciano Martins Costa: Um mistério no ar

Masteriano de 1998, editor do Observatório da Imprensa comenta polêmica em torno do lançamento do carro elétrico

Observatório da Imprensa

Há mais mistério no ar das grandes cidades brasileiras do que a fumaça dos carros.
Há pouco mais de uma semana, a imprensa brasileira informou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia cancelado o lançamento do programa de incentivo à produção do carro elétrico. Nos dias anteriores, alguns jornais e portais noticiosos da internet haviam antecipado parte dos planos, o que demonstra que ele existia de fato e tinha conteúdo suficiente para ser colocado sob análise da sociedade. A solenidade na qual o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deveria fazer a apresentação do programa acabou se transformando em um momento de constrangimento para ele: apenas cinco minutos antes do início do evento, a assessoria do ministro informou aos empresários e jornalistas que lotavam o auditório do Ministério que o anúncio estava cancelado.
 
A informação oficial alegava que o presidente da República havia pedido mais tempo para conhecer melhor a proposta. Antes de se dirigir ao local do evento, o ministro havia se reunido com o presidente, que aparentemente havia autorizado a divulgação do projeto. O que aconteceu entre a conversa do ministro com o presidente e o cancelamento do anúncio, apenas alguns minutos depois? A imprensa noticiou o constrangimento do ministro, ouviu representantes da indústria presentes ao evento, e depois esqueceu o assunto.
 
Publicações especializadas do setor automobilístico divulgavam, naqueles dias, reportagens esclarecedoras sobre as condições para o sucesso de um programa de incentivo à produção de carros elétricos. Observava-se, por exemplo, que um dos maiores entraves para o sucesso dessa tecnologia é o desenvolvimento de baterias de lítio ou processos ainda mais avançados, já produzidos em laboratórios mas ainda não disponíveis em larga escala no mercado. Quanto ao mercado, segundo a imprensa, trata-se simplesmente de oferecer uma alternativa mais interessante, em termos econômicos, do que os carros com motores flex. O custo da energia elétrica seria um empecilho.
Mas não se trata apenas disso. Como a imprensa abandonou o assunto, restam apenas as especulações e o divertido jogo da teoria da conspiração.
 
O ponto de mutação
Há cerca de um mês, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, apresentou, durante a Conferência Internacional Ethos de Responsabilidade Social, um detalhado plano de exploração das reservas de petróleo da camada de pré-sal. Foi um momento raro, que a imprensa em geral desperdiçou. Gabrielli projetou gráficos, ofereceu dados em profusão, anunciou investimentos, defendeu o sistema de partilha no programa de exploração do óleo, anunciou a reativação do setor petroquímico e assegurou que a Petrobrás está garantindo o abastecimento de combustíveis por pelo menos mais 30 anos.
 
Os jornalistas convidados para debater com ele não conseguiram questionar os fundamentos do programa de investimentos acertado com o governo. Foi, como se costuma dizer, um verdadeiro passeio. A profusão de informações oferecidas pelo presidente da Petrobrás seria suficiente para deixar os brasileiros tranqüilos quanto ao futuro da empresa, a não ser por um detalhe: a estratégia do governo e da Petrobrás considera que a transição para um sistema de transportes completamente diferente do modelo baseado no motor a explosão – com gasolina, diesel ou etanol – vai ocorrer lentamente, num período de duas ou três décadas.
 
Aí é que entra o mistério sobre o cancelamento, ou adiamento, do programa de incentivo à produção de motores elétricos. Qual seria o impacto da substituição rápida, digamos, num prazo de cinco anos, dos atuais motores a explosão por motores elétricos de alta eficiência? Como ficaria a estratégia da Petrobrás, com todo o potencial de riqueza das reservas do pré-sal, se, no ponto de maturação, os bilhões de dólares investidos na extração, refino e distribuição não encontrassem a retribuição esperada do mercado? E se a transição for uma ruptura, um ponto de mutação, como já observava há mais de 30 anos o físico Fritjoff Capra? Quem conversou com o presidente da República depois que ele autorizou o ministro da Fazenda a divulgar o plano dos carros elétricos, e que o convenceu a cancelar o anúncio? Quanto esforço de reportagem seria necessário para esclarecer essas questões?
O que impede a imprensa de continuar perseguindo temas como esse, e de discutir profundamente os sistemas que resistem ao processo de mudanças que a realidade nos impõe?

Luciano Martins Costa (II Master em Jornalismo - 1998) é editor do Observatório da Imprensa e colunista de Sustentabilidade do jornal Brasil Econômico


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