Master em Jornalismo Uma revolução no ensino de jornalismo no Brasil

26/07/2010

Decifrar o enigma Dilma

Carlos Alberto Di Franco

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares dos leitores. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros mitos que conspiram contra a  credibilidade dos jornais. Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da imparcialidade absoluta. Transmite a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É um engano, um jogo de marketing. É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto, da desinformação dos estrategistas eleitorais e do contrabando opinativo semeado pelos arautos das ideologias.

            Boa parte do noticiário de política, mesmo em ano eleitoral, não tem informação. Está dominado pelo declaratório e ofuscado pelos lances do marketing da campanha. Dilma Rousseff, por exemplo, continua sendo apenas uma embalagem, um enigma a ser decifrado. Maquiada, penteada e produzida pelo comando da sua campanha, ainda não mostrou sua verdadeira face. Suas convicções, aparentemente, mudam como chuva de verão.  Lança um programa de governo. Tem reação? “Não assinei, não li, só rubriquei”. A leviandade constrange e desqualifica a candidata. Instaurou-se, sob a égide de certas esquerdas, a política do descompromisso radical com os fatos. A saída é sempre a mesma: ninguém sabe, ninguém viu.

   No documento de dezenove páginas, protocolado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e depois estrategicamente escanteado pela tática do “não li, só rubriquei”, a candidata ressuscitou as mesmas teses que apareceram marcadas com a força das suas impressões digitais na primeira edição do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Você lembrará, caro leitor, que o presidente Lula seguiu o mesmo roteiro da sua criatura. Pressionado pela reação da sociedade, disse que tinha assinado “sem ler” e mandou que o pacote fosse refeito. O procedimento é sempre o mesmo. E é essa reiteração da leviandade malandra que preocupa. Será que as teses do PNDH-3 conhecidas e já rechaçadas pela sociedade não são a verdadeira cara da candidata?

  Quem é Dilma Rousseff? Qual é sua biografia real? O que a candidata oficial, sem blindagens e proteções, efetivamente pensa a respeito dos temas que dominam a agenda pública: liberdade de imprensa, controle da mídia eletrônica, aborto, propriedade privada, invasões de terra pelo MST? Os defeitos, as virtudes e o pensamento de José Serra são patentes. O idealismo coerente de Marina Silva, embora sem a força de uma poderosa máquina eleitoral, também é bastante evidente.

 Dilma Rousseff, no entanto, continua empacotada. Dilma não é Lula, um carismático de livro e um mestre da conciliação. Conseguirá impedir que os radicais do PT imponham sua política do atraso? Recentemente, João Pedro Stédile, o mais influente dirigente do Movimento dos Sem-Terra  (MST), previu que o Brasil viverá uma explosão de ocupações de terra se Dilma vencer as eleições. “Com Dilma, nossa base social perceberá que vale a pena se mobilizar”, disse Stédile, armado de uma sinceridade cortante.

Na verdade, Dilma é o terceiro mandato de Lula. Mas o sem carisma, sem a habilidade, sem o domínio das bases e sem a ginga do criador. E isso precisa ser dito com todas as letras. Segundo Hélio Bicudo, fundador do PT, deputado federal pelo partido, vice-prefeito de São Paulo na gestão Marta Suplicy, “Lula quer Dilma Rousseff no poder para continuar mandando no País”. Dilma não tem luz própria. É, apenas, um elo no projeto autoritário de poder do presidente da República.

 “Não estou no PT desde 2005”, diz Bicudo.  “Retirei a filiação porque entendi que o PT não cumpria mais seus ideário”. Referindo-se ao papel de Lula no mensalão, Bicudo não tergiversa: Como Lula “diz que não sabia?  Lula manda no PT”. Helio Bicudo, com forte dose de ceticismo, vislumbra um horizonte sombrio para a democracia brasileira:

“É uma vergonha. A Constituição diz que se deve olhar a vida pregressa do candidato. Mas, a lei resumiu isso a um processo criminal. Vamos continuar tendo bandidos na política. Veja os envolvidos no mensalão. Foram denunciados pelo Procurador-Geral da República. Mas, pela lei, poderiam candidatar-se”. “Quando um presidente da República nomeia 9 ministros do STF, não há como garantir independência”, conclui Bicudo.

Não sou tão pessimista, pois presumo que o nomeado, ao sentir o peso e a dignidade da toga, é capaz de deixar  de lado interesses menores e olhar para o bem do Brasil. A história registra um belo capítulo de independência. Thomas Becket, jurista, chanceler da Inglaterra e amigo do rei, disse ao seu protetor: “Se  está pensando que terá um obediente pupilo está enganado e seu amor se transformará em ódio”. E assim foi. O rei tentou manipular o amigo, mas Becket foi fiel à sua consciência e ao seu cargo. Foi executado a mando do rei. O monarca perdeu um leal servidor, mas a Inglaterra ganhou um herói e a Igreja Católica proclamou um novo santo.

A programação eleitoral gratuita é, quando muito, uma aproximação da verdadeira face dos candidatos. Tem muito espetáculo e pouca informação. Só o jornalismo independente pode mostrar o verdadeiro rosto dos candidatos. Sem maquiagem e sem efeitos especiais. Temos o dever de fazê-lo.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com). E-mail: difranco@iics.org.br


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